Desinformação & redes sociais? Veja o que este estudo diz!

A desinformação pode ser definida como um tipo de conteúdo que contém informações sem base científica e/ou factualmente incorretas, induzindo em erro terceiros (mesmo que sem intenção de prejudicar, enganar ou iludir).
Uma revisão sistemática publicada no Journal of Social Media Search aponta, inclusive, que num dos estudos analisados, 80% dos conteúdos sobre saúde apresentam um carácter desinformativo. Adicionalmente, estes descobriram também que, na rede social TikTok, conteúdos sobre a Perturbação de Hiperatividade e Défice de Atenção (PHDA), apresentam uma prevalência de desinformação de cerca de 52%.
Estes dados levam-nos imediatamente a refletir e a perceber que, mais importante do que recorrer ao online para nos mantermos atualizados e informados, devemos avaliar cuidadosamente a veracidade do que chega aos nossos ecrãs!
Ao longo deste artigo, conseguirá encontrar outras conclusões relevantes deste mesmo estudo, bem como algumas dicas para identificar e combater a desinformação! 👇
Em que consistiu este estudo?
Publicado no presente ano, a revisão sistemática Quality, reliability and misinformation in mental health and neurodivergence content on social media, analisou cerca de 27 estudos com o intuito de avaliar a precisão, qualidade e a fiabilidade de conteúdos sobre saúde mental e neurodivergência no digital.
A análise consistiu na comparação entre as diferentes plataformas (Instagram, Facebook, Twitter, Youtube e Tiktok), e os diferentes temas pelos quais os conteúdos se debruçaram.
O que conseguiram concluir?
Dentro do campo da saúde mental e da neurodivergência, verificaram-se os seguintes níveis de desinformação:
- Depressão pós-parto: entre os 3% e os 7,81% (consoante a plataforma)
- Claustrofobia: 56,92%
- Condições e tratamentos de saúde mental: entre os 40% e 41% para o Autismo e 38,6% e 52% para a PHDA.
A explicação para estes valores alarmantes pode residir no algoritmo e na moderação de conteúdos de cada plataforma, que parecem ser fatores que estão diretamente relacionados com a disseminação de informação falsa e sem base científica.
Curiosamente, plataformas como o Youtube Kids e o Facebook demonstraram valores mais reduzidos em relação a outras redes sociais como o Tiktok que parece dar maior destaque e visibilidade a vídeos trend e de curta duração. ✅
Os investigadores explicam que isto acontece devido ao facto de o Youtube ter uma tendência para dar prioridade a conteúdos oriundos de canais mais estabelecidos, bem considerados na plataforma e considerados como fontes credíveis e o Facebook porque dá prioridade a páginas que a pessoa já segue e/ou “é amiga”.
O que está na origem da desinformação?
Além dos fatores mencionados anteriormente (algoritmo e moderação de conteúdos), a variabilidade de resultados obtidos na plataforma Youtube, que demonstrou alterações significativas de acordo com os temas, sugere que um dos fatores para o aumento da desinformação é a baixa literacia dos utilizadores no campo da saúde.
Como podemos identificar notícias falsas?
Identificar conteúdo falso ou errado pode nem sempre ser uma tarefa fácil. No entanto, antes de tomar uma informação como garantida, deve questionar-se:
💭 “Esta informação é de uma página credível?”
Informações compartilhadas por entidades e profissionais de saúde apresentam maior qualidade e viabilidade do que conteúdos criados por não profissionais.
💭 “Esta informação é assim tão simples? Qual é o fundamento?”
No que toca à saúde, os factos nunca são assim tão simples! Não existem dicas e/ou soluções milagrosas para solucionar e/ou diagnosticar problemas de saúde mental.
Ao deparar-se com este tipo de conteúdo questione-se, procure outras fontes credíveis recorrendo, se necessário, ao apoio de profissionais de saúde. Na suspeita de diagnósticos, por exemplo, é importante que a sua confirmação seja efectuada por especialistas para que possam proporcionar o acompanhamento correto.
💭 “Estes dados são efetivamente reais ou apenas sensacionalistas?”
Muitos títulos são estrategicamente pensados para atrair a atenção dos utilizadores das redes sociais e, por isso, tentam formular frases com o intuito de chocar, assustar ou viralizar.
Atente a expressões como “nunca”, "sempre” ou números elevados.
💭 “De que plataforma está a vir este conteúdo?”
Tal como vimos ao longo do artigo, algumas plataformas têm maior tendência para divulgar conteúdos falsos e/ou errados. Considere a plataforma em que está a visualizar o conteúdo e a sua forma de comunicação.
💭 “Será que existem outras fontes que mencionam o mesmo?”
Na dúvida, devemos procurar aprofundar a pesquisa. Verificar que outras páginas e/ou entidades mencionam os mesmos dados e/ou informações, pode ser um bom indicador de validade. Além disso, conteúdos que fazem referência a estudos científicos reforçam a credibilidade da informação.
💭 “Estas imagens parecem reais ou podem ter sido geradas por IA?”
Há cada vez mais conteúdos gerados por inteligência artificial, incluindo imagens e vídeos. Desta forma, é importante procurar padrões que identifiquem a Inteligência Artificial e não partir do princípio de que todos os conteúdos visuais são reais.
Como podemos evitar “fake news” e desinformação na saúde?
Pequenas ações podem fazer uma grande diferença! Seguindo a linha anterior, ao deparar-se com conteúdos de saúde no digital deverá:
1) Não partilhar sem verificar
O aumento da desinformação está ligado à partilha de conteúdos cuja veracidade não é totalmente comprovada.
2) Valorizar fontes credíveis
Priorize conteúdos vindos de instituições reconhecidas e/ou de profissionais de saúde!
3) Corrigir (sem atacar ou ofender)
Combater a desinformação também passa por corrigir conteúdo que sabemos que não está correto. Com calma e clareza devemos alertar e mencionar os factos.
4) Trabalhar o pensamento crítico
Acompanhar o mundo digital implica questionarmos aquilo que aparece nos nossos ecrãs “Será que isto é verdade?” “Tem validade científica?” “Será uma informação sensacionalista?” “Há opiniões profissionais?” “Existem provas?”.
O que dizem os nossos profissionais?
Em contexto de consulta, por vezes os adolescentes partilham informação que viram partilhada nas redes sociais com a certeza de ser uma fonte credível. Quando proponho analisarmos essa informação à luz de conceitos como probabilidade dessa informação ser verídica, validação de fontes alternativas de informação e fazer usufruto de competências críticas de análise, por vezes essa “desinformação” partilhada torna-se evidente.

Mais do que ausência de informação, neste momento em que vivemos, é cada vez mais importante que o acesso à internet de crianças seja monitorizado, pois são um grupo especialmente vulnerável e ingénuo. Também é importante conversar com os/as nossos/nossas adolescentes acerca de conteúdos com que se tenham deparado e estimular a sua capacidade crítica para que sejam eficazes a duvidar de fontes e de informações que pareçam desadequadas. É, assim, fundamental manter uma linha de comunicação ativa a que possam recorrer em caso de dúvida.
De salientar que as redes sociais estão a ser encaradas como meios de difusão de estilos de vida, que muitas vezes levam a que crianças e jovens encarem esse nível de conforto ou de atividade como “normal”, quando na realidade apenas representa uma parte limitada da vida da pessoa que o está a partilhar. Este tipo de confronto entre o que é virtual e o que é a sua vida real pode alimentar perturbações de ansiedade ou estados depressivos, em que o jovem considera que não está a conseguir corresponder ao que seria de esperar, aumentando o sofrimento e mal-estar.
Considerações Finais
Falar sobre o impacto da desinformação e das notícias falsas/sensacionalistas é cada vez mais importante. A desinformação sobre a saúde mental pode ser prejudicial podendo levar a estigmas, falsas crenças, atrasos na procura de ajuda profissional (e na confirmação de diagnósticos).
🧠 Como especialistas na área do Neurofeedback e Psicologia Clínica, procuramos divulgar constantemente informação sobre esta forma de atuação, os seus benefícios e de como podem trazer resultados positivos para crianças, adolescentes e adultos com quadros de PHDA ou ansiedade.
Mais importante, procuramos sempre alertar que os diagnósticos devem ser sempre realizados por profissionais, evitando autodiagnósticos e intervenções sem supervisão e acompanhamento médico. Caso suspeite que possa estar a lidar com alguma perturbação, deverá entrar em contacto com profissionais qualificados, capazes de dar a orientação necessária para uma rotina mais saudável e maior bem-estar! 🧡
Referências
Carter, A., Gracey, F., Moody, J., Ovens, A., & Chatburn, E. (2026). Quality, reliability and misinformation in mental health and neurodivergence content on social media: a systematic review. Journal of Social Media Research, 3(1), 30–47. https://doi.org/10.29329/jsomer.84
Parlamento Europeu. (2025). Desinformação: 10 formas para te protegeres a ti e aos outros. https://www.europarl.europa.eu/topics/pt/article/20250603STO28720/desinformacao-10-formas-para-te-protegeres-a-ti-e-aos-outros
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