Subtipos da PHDA podem ser identificados pelo mapeamento cerebral?

July 1, 2026

A Perturbação de Hiperatividade e Défice de Atenção (PHDA) afeta crianças, adolescentes e adultos. Atualmente sabe-se que a perturbação não se manifesta da mesma forma em todas as pessoas, mas que é possível identificar 3 subtipos:

  • Desatento: onde existem dificuldades de concentração, na atenção sustentada, os pensamentos dispersam facilmente e verificam-se esquecimentos frequentes.
  • Hiperativo/Impulsivo: onde existem dificuldades em controlar os próprios comportamentos, em ficar sossegado por longos períodos de tempo e onde há uma tendência para agir sem pensar nas consequências.
  • Combinado: onde existe uma combinação dos subtipos anteriores. Ou seja, verificam-se sinais de desatenção, mas também de agitação constante.

Assim, por se tratar de uma perturbação de apresentação variável, intervenções como a medicação podem exigir um processo de tentativa e erro até se encontrar a mais adequada para cada caso clínico, o que pode tornar o processo, por vezes, frustrante para o indivíduo.

Um estudo recentemente publicado no JAMA Psychiatry mostrou como a Neuroimagem pode facilitar o processo de identificação do subtipo da PHDA e de como isso pode abrir portas para intervenções mais eficazes e com menor margem de tentativa e erro. 

O que nos fala o estudo?

Publicado em fevereiro de 2026, o estudo Mapping ADHD Heterogeneity and Biotypes by Topological Deviations in Morphometric Similarity Networks, fala-nos de como a análise conjunta de regiões específicas do cérebro pode ajudar a identificar subtipos concretos da perturbação.

Assim, nas 446 crianças com PHDA envolvidas no estudo, foi dada a prioridade aos resultados obtidos através do recurso à Neuroimagem, sem olhar aos sintomas (como a atenção ou a agitação), como acontece nos normais processos de diagnóstico clínico.

Isto é importante porque o estudo mostra-nos que esta subdivisão da perturbação (desatento, hiperativo/impulsivo e combinado) pode ser feita não apenas com base em características subjetivas, como a sintomatologia e os comportamentos, mas pode também ser feita com base na biologia, possibilitando intervenções mais personalizadas e eficientes.

Como é que isto acontece?

Os autores do estudo identificaram desvios em zonas específicas do cérebro de crianças com PHDA, nomeadamente no:

  • Corpo Estriado: ligado aos sistemas de recompensa, controlo motor e motivação.
  • Giro frontal inferior: ligado ao controlo inibitório (capacidade de travar impulsos) e à atenção
  • Córtex orbitofrontal: associado à tomada de decisão e regulação emocional 

O estudo sugere que, no cérebro de uma criança com PHDA, podem existir diferenças no funcionamento e na forma como estas regiões se ligam entre si. Zonas como o giro frontal inferior e o córtex orbitofrontal, em vez de funcionarem com regiões mais próximas, parecem ligar-se a diferentes partes do cérebro como uma tentativa de compensar a menor capacidade de processamento de outras regiões.

Estes desvios e alterações no funcionamento, podem assim estar associadas aos sintomas que conhecemos da perturbação: impulsividade, agitação, desatenção e dificuldade no controlo das emoções.

A propósito da manifestação da PHDA, a Dra. Shilan Aslani, doutorada em Neurociências e Gerente da NeuroImprove Clinic, explica:

Dra. Shilan Aslani

"As crianças com PHDA expressam frequentemente estas dificuldades através de frases como: "Não me consegui controlar", "Não sei porque o fiz" ou "Tentei realmente ouvir, mas não percebi". Este artigo é uma prova clara de que estas dificuldades não são meramente um mau comportamento, mas que têm origem em alterações específicas na estrutura e função do cérebro que afetam a criança. Tal leva-nos, enquanto adultos, a parar e refletir antes de reagir "impulsivamente" aos seus sintomas."

Dra. Shilan Aslani - Fundadora e Gerente da NeuroImprove Clinic

Que diferentes subtipos da PHDA conseguiram encontrar? 

Os subtipos ou “biótipos” apontados pelo estudo, parecem revelar alterações numa zona comum: o Córtex Orbitofrontal que controla o equilíbrio entre agir por impulso e decisões ponderadas e/ou ações com propósito.

No entanto, apesar deste ponto comum, verificaram-se alterações específicas nos circuitos neuronais que nos levam à existência de diferentes sintomas e, consequentemente, a esta subdivisão.

Biótipo 1 (ou subtipo combinado) 

👉 Apresenta os sintomas mais intensos. Com alterações na ligação córtex pré-frontal medial - pálido, este subtipo apresenta sinais de desatenção, hiperatividade, impulsividade, mas também desregulação emocional.

Biótipo 2 (ou subtipo hiperativo-impulsivo)

👉 Com alterações na ligação córtex cingulado anterior - pálido, este subtipo apresenta sinais de maior hiperatividade, impulsividade e dificuldades em controlar o comportamento.

Biótipo 3 (ou subtipo desatento)

👉 Verificam-se alterações no giro frontal superior, que faz com que seja difícil manter a atenção e permanecer focado numa tarefa por longos períodos de tempo.

A identificação destes biótipos permite compreender a PHDA de forma mais detalhada. Neste seguimento, a Dra. Shilan Aslani, acrescenta:

Dra. Shilan Aslani

"Durante décadas, a PHDA era diagnosticada com base em listas de verificação de sintomas, considerando-a essencialmente como uma condição homogénea. No entanto, este estudo inovador mostra que, por detrás destas dificuldades diárias, as crianças apresentam alterações funcionais cerebrais. Este artigo é mais uma prova de que o mapeamento cerebral é o futuro do diagnóstico da PHDA. Ao identificarmos de forma exata o circuito alterado em cada criança, podemos avançar para tratamentos personalizados que visam a causa biológica principal em vez de apenas mascarar os sintomas, mudando a vida de inúmeras crianças e oferecendo-lhes o apoio de que necessitam para atingirem o seu pleno potencial."

Dra. Shilan Aslani - Fundadora e Gerente da NeuroImprove Clinic

Existe alguma relação com os Neurotransmissores?

🔎 Uma análise exploratória revelou que cada biótipo pode estar ligado a diferentes neurotransmissores (como se cada um tivesse uma espécie de “assinatura química”). No entanto, esta é uma informação preliminar que ainda precisa de ser estudada e por isso, não deve ser utilizada para definir tratamentos.

Como conseguiram suportar estas conclusões?

Os resultados obtidos através da descodificação pelo Neurosynth (uma base de dados global) confirmaram que as alterações cerebrais verificadas em cada biótipo são responsáveis pelos sinais e sintomatologia verificadas nas crianças, conferindo uma forte validação e credibilidade a esta subdivisão.

Por que é que este estudo é tão importante?

Este tipo de estudo demonstra que, no que toca aos diagnósticos, é importante conhecer o atual funcionamento do cérebro e não focar apenas na sintomatologia. Compreender a atividade cerebral pode facilitar o processo da confirmação do diagnóstico e ajudar a definir o melhor plano de intervenção para cada indivíduo.

Do ponto de vista profissional e clínico, a Dra. Filipa Pinho, Terapeuta de Neurofeedback e Gestora de Caso na NeuroImprove Clinic partilha a sua experiência:

Dra. Filipa Pinho

"Como técnica de Neurofeedback e EEG, lido diretamente com os pais de crianças com PHDA e estes referem, muitas vezes, o receio de recorrer à medicação e a esperança de encontrar uma abordagem alternativa. Da mesma forma, chegam-nos muitas crianças que já tomaram medicação e não obtiveram os resultados esperados. Este processo de tentativa e erro acontece, revelando-se cansativo e desmotivante para quem acompanha e quer ajudar estas crianças. Acredito que, em parte, isto acontece efetivamente porque a medicação é prescrita tendo em conta os sintomas, sem se conhecer o padrão cerebral da criança."

Dra. Filipa Pinho - Terapeuta de Neurofeedback e Gestora de Caso

Na NeuroImprove Clínic, acompanhamos diariamente crianças e adolescentes com PHDA, onde o processo de avaliação inclui a realização de um qEEG (Electroencefalograma Quantitativo) que nos dá uma perspetiva clara do estado atual do cérebro. 

O qEEG permite-nos assim, identificar padrões de atividade cerebral associados à PHDA e a intervir de forma personalizada e ajustada às necessidades de cada criança.

Relativamente à avaliação da atividade cerebral, a Dra. Filipa Pinho acrescenta: 

Dra. Filipa Pinho

"A neuroimagem acaba por se assemelhar bastante com o qEEG no sentido de avaliar desregulações no cérebro que se associam aos sintomas identificados. Saber que a ciência demonstra, cada vez mais, o valor deste tipo de avaliação para o diagnóstico e tratamento das perturbações psicológicas é muito reconfortante. Traz certezas, valida o nosso trabalho clínico e dá mais segurança a quem nos procura."

Dra. Filipa Pinho - Terapeuta de Neurofeedback e Gestora de Caso

A integração entre a Psicologia Clínica e Neurofeedback, permite ter um conhecimento profundo de cada caso clínico e dar o apoio necessário para que consigam atingir um maior equilíbrio, autonomia e realização em todas as áreas! 🧡

Referências

Pan, N., Long, Y., Qin, K. (2026). Mapping ADHD Heteroginity and Biotypes by Topological Devations in Morphometric Similarity Networks. JAMA Psychiatry. doi: 10.1001/jamapsychiatry.2026.0001 

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